Cinema

Viagem Maldita

Viagem Maldita
Título original: The Hills Have Eyes
Ano: 2006
País: Estados Unidos
Duração: 107 min.
Gênero: Terror
Diretor: Alexandre Aja (Espelhos do Medo, Piranha [2010])
Trilha Sonora: Tomandandy (O Pacto, P2 - Sem Saída, Ecos do Mal)
Elenco: Aaron Stanford, Kathleen Quinlan, Ted Levine, Vinessa Shaw, Dan Byrd, Emilie de Ravin, Tom Bower, Billy Drago, Robert Joy, Michael Bailey Smith, Laura Ortiz, Ezra Buzzington, Ivana Turchetto, Desmond Askew
Distribuidora do DVD: Fox
Avaliação: 8/10

Revisto em DVD em 7-MAR-2009, Sábado

Viagem Maldita deveria fazer a alegria de quem vive reclamando que os filmes violentos não são tão violentos assim ou que falta colhões aos diretores de longas de horror. Na minha opinião, é o mais forte de todos os filmes feitos na onda do torture porn.

Como um pesadelo hiperrealista, o açoite de Alexandre Aja sobre a classe média norte-americana não perde nada da força na tela pequena. O arco de conseqüências que se origina dos testes atômicos conduzidos pelos militares décadas atrás no deserto e descamba para o mais puro horror nos dias atuais não é para qualquer plateia, definitivamente. Wes Craven, que concebeu o filme original, deve ter ficado com um sorriso de orelha a orelha, e com razão. Para falar a verdade, só não vai ficar quem não gosta do gênero ou quem é sensível demais.

Que tipo de cinéfilo é você? Corajoso ou sensível?

Além de um making-of de 50 minutos, o disco tem como extras uma faixa de comentários em áudio dos produtores Wes Craven e Peter Locke (sem legendas), o videoclipe de Leave the Broken Hearts do The Finalist e os trailers de Atrás das Linhas Inimigas II - O Eixo do Mal, A Profecia (2006) e O Trapaceiro.

Texto postado por Kollision em 7/Agosto/2006:

Primeiro foi Tobe Hooper, que em 2003 deu o aval para a refilmagem de seu clássico O Massacre da Serra Elétrica (1974). Curioso o suficiente, o remake foi um dos grandes responsáveis pelo surgimento da vertente mais forte do cinema de horror moderno, pesadamente calcada na violência explícita e num sadismo extremo. Eis que Wes Craven, outro pilar do terror contemporâneo, assume a produção da refilmagem homônima de um filme que ele dirigiu em 1977, bastante similar à proposta da obra de Tobe Hooper e lançado por aqui como Quadrilha de Sádicos. Como não podia deixar de ser, seu protegido Alexandre Aja faz de tudo para elevar o nível do que foi mostrado nos filmes deste novo estilo até então, refilmagens ou não.

As vítimas da vez são uma típica família americana, estúpida o suficiente para pegar um atalho através do deserto do Novo México, que leva a lugar algum numa área anteriormente usada para testes nucleares. Viajando no trailer estão o chefe da família (Ted Levine), sua esposa (Kathleen Quinlan), seus filhos adolescentes (Dan Byrd e Emilie de Ravin), sua filha mais velha (Vinessa Shaw) e o genro (Aaron Stanford), devidamente acompanhados da filha ainda bebê, e os dois cães pastores da família. O acidente e a pane no carro são somente o início de uma jornada de horror, onde uma família de mineiros isolados da humanidade e terrivelmente deformados pelos efeitos da radiação atômica cai sobre eles como urubus famintos sobre a carniça.

A releitura, segundo quem já viu o filme original, é fiel e segue os mesmos rumos adotados por Craven em 1977. A violência gráfica, contudo, é algo tão direto e brutal que não se pode deixar de pensar na consolidação do tal gênero à parte dentro do cinema de terror. Seria a palavra "evolução" aplicável neste caso? Talvez sim, quando se pensa na queda de praticamente todos os parâmetros socialmente aceitos como normais num trabalho de cinema, com público definitivamente seleto e um material que se situa na fronteira do doentio, cujo maior objetivo parece ser levar o espectador a extremos de repulsa e perplexidade. Há quem não tenha estômago para isso, há quem ache o resultado forte demais, mas não se pode ficar indiferente ao subtexto presente nestes filmes, que geralmente refletem a destruição dos valores da sociedade civilizada e remetem à natureza mais primitiva de uma violência que sempre esteve entre nós, mas nem sempre é justificada.

Viagem Maldita consiste num trabalho até decente do ponto de vista de caracterização de personagens. O slogan de "quem tem sorte morre primeiro" é verdadeiro, e o horror que emerge por trás das colinas do deserto impressiona pelo sadismo sem firulas. A família paga o pato da negligência de seu próprio governo, num roteiro incômodo que alcança um ápice de tensão no momento crucial de sua desestruturação, com passagens perturbadoras que envolvem estupro, tortura e assassinato à queima-roupa, sem espaço algum para qualquer insinuação de humor negro. Aaron Stanford abandona o arquétipo de adolescente que manteve em seus filmes anteriores (que incluem a segunda e a terceira parte da série X-Men), servindo de ponto central e saco de pancadas num banho de sangue, machadadas e canibalismo para ninguém botar defeito. Ele lidera um elenco que dá tudo de si em cena, quer esteja do lado do bem ou do mal.

Bichos-papões modernos seria um outro modo de se denominar as aberrações das quais trata este filme. Criações do próprio homem predando o próprio homem, desvios malditos numa bolha pustulenta de semi-humanidade. Não é preciso muita força para perceber que não são as deformações de seus monstros que fazem da violência de Viagem Maldita algo chocante. Bolsões de desigualdade social nas comunidades ditas evoluídas podem ter o mesmo efeito, sendo a capacidade do homem de fazer o mal ao seu semelhante (em escalas até piores do que o que é mostrado no filme) a real causa da sensação de horror que este trabalho é capaz de evocar.

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