Cinema

Cruzada

Cruzada (2005)
Título original: Kingdom of Heaven
Ano: 2005
País: Espanha, Estados Unidos, Inglaterra
Duração: 145 min.
Gênero: Ação/Aventura
Diretor: Ridley Scott (Todas as Crianças Invisíveis, Um Bom Ano, O Gângster)
Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams (Domino - A Caçadora de Recompensas, As Crônicas de Nárnia - O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa)
Elenco: Orlando Bloom, Eva Green, Jeremy Irons, Ghassan Massoud, Liam Neeson, Edward Norton, Marton Csokas, David Thewlis, Brendan Gleeson, Michael Sheen, Bronson Webb, Nasser Memarzia, Ulrich Thomsen, Matthew Rutherford, Michael Fitzgerald, Iain Glen
Avaliação: 8

Por mais imparcial que tentemos ser quando submetemos determinado filme a uma análise, mesmo a mais superficial delas, sempre estamos suscetíveis a preconceitos às vezes bobos (ou não) contra determinado ator, roteirista, diretor, etc. Uma de minhas birras, por exemplo, é com Will Smith. E com Robert Altman. Dito isso, posso então admitir que também nunca fui muito com a cara de Orlando Bloom, figurinha que ganhou uma notoriedade absurda com a série O Senhor dos Anéis, no papel do elfo Legolas. Bloom sempre pareceu ser queridinho demais sem motivo algum, e mesmo sem ter encarado papel algum de protagonista. Porém, quando um diretor conceituado como Ridley Scott escala alguém para um papel de protagonista num drama deste porte, é preciso dar uma chance ao trabalho resultante. Não faz diferença se esse alguém faz parte da minha galeria de "passa-reto", da qual Orlando Bloom faz parte.

Balian (Bloom) é um ferreiro desiludido que, após perder a mulher e o filho, recebe a visita surpresa do pai que nunca conhecera, um rico e importante cruzado (Liam Neeson), que implora por seu perdão e pede que ele o acompanhe até Jerusalém. Relutante, as circunstâncias acabam fazendo com Balian siga o pai, vindo em algum ponto do caminho a substituí-lo e ser introduzido na sociedade de Jerusalém. A paz entre cristãos e muçulmanos, há anos mantida com sabedoria pelo rei leproso Baldwin (Edward Norton), é ameaçada por Guy de Lusignan (Marton Csokas), marido da princesa e irmã do rei Sybilla (Eva Green), um sanguinário guerreiro que quer a todo custo exterminar os muçulmanos que vivem na região. Contando com poucos aliados, como o conselheiro Tiberias (Jeremy Irons), Balian acaba sendo testemunha da terrível ascensão de Guy de Lusignan e do inevitável conflito com o rei muçulmano Saladin (Ghassan Massoud), terminando por liderar a única defesa contra um imbatível exército que deseja destruir Jerusalém.

Desde a introdução dos personagens, passando pela transformação gradual do ferreiro Balian num destemido cavaleiro, até a batalha final, Cruzada exala apuro técnico em função de uma história bem contada, que faz boas escolhas ao longo de seu desenvolvimento. Mesmo que o personagem principal seja o ferreiro feito por Orlando Bloom, o roteiro não deixa de lado os muçulmanos ao relatar os conflitos que cercam a cidade sagrada de Jerusalém. Tão nobre quanto o rei cristão que esconde a lepra por trás de uma máscara, o muçulmano Saladin é um exemplo de governante sensato e justo. Assim como seu oponente é cercado por conselheiros que enxergam apenas a supremacia cristã, ele próprio sofre da má influência de alguns de seus pares. A imparcialidade com que o conflito é mostrado consiste num dos maiores trunfos do filme, que neste tema dá um passo para trás e enfoca a religião através da visão que dela têm os homens mais poderosos da história. Nesse sentido, a fé, a devoção e a visão deturpada do significado de Jerusalém encontram uma representação que, se não é perfeita, é extremamente adequada, principalmente quando comparada a todo o atual conflito na região do Oriente Médio. A motivação do personagem principal (a expiração de seus pecados) e a mensagem geral do filme terminam por atribuir à obra um status de razoável nobreza, sem que isso seja exagerado ou piegas demais.

Visualmente, Ridley Scott é um diretor quase imbatível, capaz de dar vida ao mais absurdo devaneio escapista concebido por qualquer roteirista maluco. Sua marca e seu estilo transparecem em Cruzada em cada centímetro de filme, dando a chance perfeita para Bloom mostrar que não passa de um cara sortudo demais. Há de se convir que o trabalho do ator é facilitado pelo excelente design de produção, que ele está cercado por nomes experientes como Jeremy Irons e Edward Norton, e que seu personagem inspira empatia quase instantânea junto à platéia. Ele não compromete seu trabalho e não há muito o que reclamar da 'substância' dramática que a história carrega mas, ainda assim, continuo a esperar algo dele que justifique o hype. Para o seu bem e de todo o filme, o pulso firme de Ridley Scott manteve tudo na linha e, por exemplo, corretamente limou as seqüências mais quentes do romance entre Bloom e Eva Green em nome da fluidez da história. Esta, por sua vez, foi levemente 'baseada' em personagens reais.

Comparações com a outra obra épica do diretor (Gladiador, de 2000) são inevitáveis. Cruzada mantém a qualidade da ambientação de época de seu antecessor e se apóia bastante nas lutas e batalhas, mas parte de uma escolha histórica um pouco mais parecida com outra obra de Scott, Falcão Negro em Perigo: trata-se de um momento crítico num conflito de proporções consideráveis. Gladiador ganha por pouco no quesito técnico (principalmente devido à escala da história), mas o roteiro e os personagens de Cruzada soam mais completos, reais e bem caracterizados.

Texto postado por Kollision em 8/Maio/2005