Cinema

As Crônicas de Nárnia - O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa

As Crônicas de Nárnia - O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa
Título original: The Chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe
Ano: 2005
País: Estados Unidos
Duração: 140 min.
Gênero: Ação/Aventura
Diretor: Andrew Adamson (Shrek, Shrek 2, As Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian)
Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams (À Procura da Vingança, Por Água Abaixo, Déjà Vu)
Elenco: Georgie Henley, Skandar Keynes, William Moseley, Anna Popplewell, Tilda Swinton, James McAvoy, Jim Broadbent, Kiran Shah, James Cosmo, Judy McIntosh, Elizabeth Hawthorne, Patrick Kake, Shane Rangi, Brandon Cook, Liam Neeson
Avaliação: 8

Em tempos de O Senhor dos Anéis e Harry Potter, a produção de filmes que adaptam textos que associam o heroísmo à fantasia é algo que não pode ser subestimado, principalmente quando há o dedo "encantado" da Disney no meio do bolo. Para os iniciados não há dúvida de que As Crônicas de Nárnia, por mais semelhanças que possam ter com a saga dos hobbits e elfos, carregam uma identidade própria que pedia por uma adaptação cinematográfica já há algum tempo. C. S. Lewis, o autor da série de sete livros que compõem as tais crônicas, foi contemporâneo e amigo de J. R. R. Tolkien, daí as várias similaridades estéticas dos dois universos. A maior diferença, contudo, está no público-alvo das duas obras, já que Nárnia é um épico com fundo moral claramente direcionado às crianças. Não que adultos não possam desfrutar desta aventura, muito pelo contrário.

Em meio aos devastadores ataques da Luftwaffe alemã sobre a região mais populosa de Londres durante a Segunda Grande Guerra, os quatro irmãos Pevensie são enviados pela mãe para a segurança da fazenda de um tio com o qual eles nunca tiveram muito contato (Jim Broadbent). Durante uma de suas brincadeiras, a garotinha Lucy (Georgie Henley) se esconde num dos armários empoeirados do enorme casarão, vindo a descobrir que ele é na verdade uma passagem mágica para um mundo fantástico coberto de neve. Após fazer amizade com um fauno (James McAvoy), criatura humanóide com pés de cabra, ela retorna ao seu mundo e a duras penas consegue convencer seus irmãos mais velhos a acompanhá-la a Nárnia. A presença das crianças não passa despercebida pela maléfica feiticeira branca (Tilda Swinton), que faz de tudo para capturá-las e impedir que uma profecia antiga se realize e ponha um fim ao seu reinado de trevas e gelo, o que está fadado a acontecer com o ressurgimento do benevolente rei Aslan (o leão com a voz de Liam Neeson).

No contexto geral, o trabalho de Andrew Adamson é extremamente decente. O filme é envolvente, e consegue transmitir com competência a sensação de deslumbramento que acompanha o descobrimento de Nárnia pela meninada, naquela que é definitivamente a aventura em cinema mais próxima do estilo do amadíssimo desenho Caverna do Dragão. Os cenários e o design de produção são magníficos, com efeitos digitais que têm a proeza de não soarem falsos ou exagerados. O padrão de excelência estabelecido após O Senhor dos Anéis é mantido nas cenas de batalha que, obviamente, não contêm sangue e nem decapitações (o filme foi produzido pela Disney, ora bolas).

Para fazer a voz do legítimo senhor de Nárnia foi convocado Liam Neeson, o mentor preferido de Hollywood, num contraponto forte em relação à bruxa malvada feita por Tilda Swinton. Com seu olhar penetrante e muita atitude, Swinton parece ter nascido para ser a rainha do gelo. Quanto à criançada, quem rouba a cena é mesmo a pequena Lucy. Edmund (Skandar Keynes), o rebelde, está sempre à sombra do mais velho e protetor Peter (William Moseley), e o ceticismo de Susan (Anna Popplewell) faz com que todos mantenham os pés no chão. Mas é Lucy quem esbanja carisma, mantendo-se no centro das atenções quase todo o tempo. A garotinha tem futuro, isso é fato.

A única fraqueza evidente de As Crônicas de Nárnia está na guerra entre o bem e o mal mostrada no clímax. Por mais admiração que as crianças humanas possam exercer sobre os seres mágicos e os animais falantes de Nárnia, vê-los empunhando armas e combatendo monstros cuja selvageria parece rivalizar com a de um Orc é absurdo. A seqüência faz questão de relembrar à platéia que o filme é um conto de fadas infantil, coisa que pode ser quase esquecida durante o desenvolvimento da história até este ponto. Nisso reside a qualidade da transposição, que não deixa de lado a subliminaridade cristã do texto de C. S. Lewis e representa um espetáculo de encher os olhos para espectadores de qualquer idade.

Texto postado por Kollision em 3/Janeiro/2006