Cinema

O Exorcista

O Exorcista
Título original: The Exorcist
Ano: 1973
País: Estados Unidos
Duração: 132 min.
Gênero: Terror
Diretor: William Friedkin (Jade, Caçado, Possuídos)
Trilha Sonora: Steve Boeddeker [relançamento]
Elenco: Linda Blair, Jason Miller, Ellen Burstyn, Max von Sydow, Lee J. Cobb, Kitty Winn, Jack MacGowran, William O'Malley, Vasiliki Maliaros, Titos Vandis, Barton Heyman, Peter Masterson, Rudolf Schündler, Gina Petrushka
Distribuidora do DVD: Warner
Avaliação: 9

As histórias que se ouve de gente que na época de lançamento deste filme se aventuraram a vê-lo nos cinemas vão de inusitadas a aterradoras, sempre exaltando o choque de todos diante da possessão demoníaca mostrada em toda a sua glória gráfica e profana. O filme, um dos grandes títulos dentro da cinematografia mundial de horror, foi a obra que sustentou a fama do diretor William Friedkin nas décadas de 70 e 80, uma vez que ele jamais foi capaz de repetir o feito, ou sequer chegar perto de seu impressionante resultado. Depois de O Exorcista, afinal, os filmes de horror mainstream jamais foram os mesmos.

O fascínio que este filme exerceu, tanto sobre as massas quanto sobre o modo de se fazer horror no cinema, não pode ser subestimado. O que é uma incógnita cada vez maior quando se avalia o enorme abismo existente entre as técnicas atuais de produção e o que Friedkin concebeu em sua história macabra, porém bastante minimalista e quase completamente destituída de malabarismos cênicos. A exceção, claro, são as ainda impressionantes seqüências de possessão e o perturbador trabalho de maquiagem que as acompanha. A versão do filme hoje disponível no mercado de DVD difere da original por ter cerca de 10 minutos a mais, acrescentados pelo diretor na ocasião de um relançamento especial nos cinemas. Longe de denegrir o original, a versão do diretor aprimora a experiência e acrescenta sutis tomadas que jogam um pouco mais de luz na natureza do demônio causador de todo o mal.

Após uma breve introdução que acompanha uma descoberta estranha do arqueólogo e padre Lankester Merrin (Max von Sydow) no norte do Iraque, a história é transferida para a região urbana de Georgetown, no Estados Unidos. Uma famosa atriz de cinema (Ellen Burstyn) está fazendo um filme em sua própria cidade. A morte do diretor da película e seu melhor amigo é prenunciada por sua filha Regan (Linda Blair), que a partir de então passa a demonstrar um comportamento cada vez mais errático, culminando num controverso diagnóstico de possessão demoníaca. A mãe recorre, então, ao padre local Damien Karras (Jason Miller), que também é psiquiatra e tem sua cota de atribulações com sua crença em Deus. Expulsar o demônio do corpo da menina, portanto, exigirá dele muito mais do que uma breve consulta médica no divã.

William Friedkin é um diretor seco e industrial como poucos de sua época, e representa talvez o mais bem-sucedido caso em sua geração de um realizador com talento limitado e material de excelente qualidade em mãos. Seu estilo carece de finesse, e suas obras costumam carregar um senso de aridez extremamente peculiar, muitas vezes denotado por um aspecto documental que tende para o mundano. Assim, soa quase como um espanto o fato de O Exorcista ter transcendido os limites do gênero, seja comercial ou artisticamente. Em vários níveis, e sob vários pontos de vista, o filme funciona porque uma extraordinária conjunção de fatores ajudou a colocar na tela uma história capaz de impressionar de verdade, absorvendo o melhor do estilo árido de Friedkin, que une a seriedade a um realismo capaz de colocar o longa num patamar diferenciado dentro de seu próprio gênero.

Observem a quase total ausência de trilha sonora nas cenas de tensão, por exemplo. É sabido que o diretor rejeitou a trilha composta por Lalo Schifrin, mas o silêncio que marca as terríveis demonstrações do poder do demônio é sufocante, e atesta uma escolha arriscada e ousada por parte do diretor. As pequenas elipses narrativas da primeira hora mantêm o movimento e o interesse numa história de ritmo lento, que se preocupa muito mais, por exemplo, em estabelecer uma base sólida para o conflito do padre Karras. O personagem, por sinal, é muito bem caracterizado pelo novato Jason Miller, em sua estréia no cinema. Ellen Burstyn transpira desespero enquanto observa a filha se flagelar e proferir impropérios inimagináveis (como na cena em que a garota se masturba com um crucifixo), que de certa forma respondem pela maior parte do choque que a película causou na época e, sem dúvida alguma, ajudaram a forçar as fronteiras entre o que era aceitável ou não num trabalho de cinema de grande apelo comercial.

A presença do policial de fala mansa feito por Lee J. Cobb parece ter sido projetada como um alívio para o clima pesado que reina durante a maior parte do tempo. O que não fica muito claro, principalmente para quem assiste ao filme pela primeira vez, é a conexão entre as cenas no deserto e o drama da menina possuída. Explicações são dadas na continuação da história (O Exorcista II - O Herege), mas não adianta esperar a mesma qualidade do longa de Friedkin. Neste, o roteiro adaptado para o cinema e produzido pelo próprio autor original, William Peter Blatty, foi agraciado com o Oscar, assim como o trabalho de edição de som. Com outras oito indicações (incluindo filme, diretor, atrizes e ator coadjuvante), O Exorcista é um trabalho imperdível e obrigatório para quem aprecia obras de horror sem abrir mão de uma experiência única e atemporal.

Os extras do DVD com a versão do diretor incluem uma faixa de comentários de William Friedkin, dois trailers, quatro comerciais de TV e dois comerciais de rádio, todos eles relacionados ao relançamento do filme em 2000.

Revisto em DVD em 25-JAN-2007, Quinta-feira - Texto postado por Kollision em 29-JAN-2007