Cinema

Ed Wood

Ed Wood
Título original: Ed Wood
Ano: 1994
País: Estados Unidos
Duração: 127 min.
Gênero: Comédia
Diretor: Tim Burton (Marte Ataca!, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, Planeta dos Macacos [2001])
Trilha Sonora: Howard Shore (Assim é Minha Vida, Antes e Depois, The Wonders - O Sonho Não Acabou!)
Elenco: Johnny Depp, Martin Landau, Sarah Jessica Parker, Patricia Arquette, Jeffrey Jones, G.D. Spradlin, Vincent D'Onofrio, Bill Murray, Mike Starr, Max Casella, Brent Hinkley, Lisa Marie, George 'The Animal' Steele, Juliet Landau, Clive Rosengren
Distribuidora do DVD: Buena Vista
Avaliação: 10

A fama póstuma costuma acontecer a muito poucas pessoas. Porém, quando já se é famoso e a morte súbita ocorre, o culto à celebridade aumenta de forma quase exponencial. Vide John Lennon, Kurt Cobain, Janis Joplin, Renato Russo, Jim Morrison, Cazuza, etc. Os dois últimos já tiveram produções cinematográficas dedicadas a retratar, sempre com fictícios retoques narrativos, suas vidas conturbadas e fugazes. Fossem quem fossem, e não importa o quão boas eram suas contribuições à arte que praticavam, suas vidas foram e são ainda hoje material para qualquer blockbuster faturar algumas dezenas de milhões de dólares.

O que dizer então de alguém que foi um fracasso em vida, morreu na miséria e foi mais tarde considerado o pior realizador naquilo em que se dedicava a fazer com tanto afinco? Exatamente esta última crítica, proferida dois anos após sua morte, seria a responsável pela hoje crescente e fiel base de fãs do seu singular, único e bizarro conjunto de obras cinematográficas, inconfundível e para sempre inserido na história da sétima arte. É claro que estamos falando de Edward D. Wood Jr., o inepto diretor de pérolas como Glen ou Glenda e Plano 9 do Espaço Sideral, este último tido por muitos como o pior filme de todos os tempos. Wood foi a mente por trás de alguns dos mais incompetentes filmes surgidos nas décadas de 50 e 60, foi massacrado pela crítica e teve uma vida particular conturbada, marcada por excentricidades e problemas com o alcoolismo.

Tim Burton, fã declarado das obras do execrado diretor (tanto que ele batizara seu sucesso anterior, Edward Mãos de Tesoura, em homenagem ao homem), levou a cabo a representação da sua vida em Ed Wood, o filme. Representação fiel (até certo ponto) da ascensão do incompetente cineasta, conta a epopéia de Wood (Johnny Depp) e sua turma de desajustados desde o seu primeiro filme distribuído comercialmente (Glen ou Glenda) até aquele que o próprio consideraria seu orgulho pessoal (Plano 9 do Espaço Sideral). Passando por suas uniões com a atriz Dolores Fuller (Sarah Jessica Parker) e mais tarde com a jovem Kathy O'Hara (Patricia Arquette), além de sua genuína amizade com o ícone do cinema de horror Bela Lugosi (Martin Landau, em performance que lhe valeu o Oscar de melhor ator coadjuvante e rendeu a Rick Baker o Oscar de melhor maquiagem), o filme mescla em sua maior parte passagens reais da vida do diretor com relativamente poucas seqüências fictícias, um dos méritos inquestionáveis da produção.

A vida de Ed Wood, em sua essência, já era um material de primeira para a concepção de qualquer filme biográfico focado tanto em seu aspecto dramático quando na mais pura comédia. Porém, é nesta última característica que Burton se concentra, fazendo de Ed Wood um show bastante divertido, que fará a alegria suprema dos cinéfilos familiarizados com os filmes de Wood. Dividido em três atos, que acompanham a realização dos filmes Glen ou Glenda, A Noiva do Monstro e Plano 9 do Espaço Sideral (A Face do Crime é solenemente ignorado, e com a devida razão), as dificuldades de Wood em conseguir financiamento e suas desventuras ao reunir o elenco dos filmes são retratadas com leveza, nunca de forma apelativa e com extremo respeito pela história de alguém que realmente acreditava naquilo que estava fazendo, mesmo apesar de todas as críticas negativas. Esse era Wood, o homem de gostava de se vestir de mulher e se recusava a repetir cenas durante filmagens, mesmo que elas fossem visivelmente malfeitas. Esse era Wood, o diretor que, com sua completa falta de talento mas indiscutível paixão pela sétima arte, criou pérolas que resistiram ao tempo e hoje fazem a alegria dos festivais de filmes trash ao redor do mundo.

Ed Wood celebra a vida do homem que inspirou o filme, e se detém antes de sua derrocada e lento afastamento do mundo que ele tanto amava. O verdadeiro Wood morreria na miséria, morando de favor no trailer de um amigo, com a idade de 53 anos. A menção a este fato aparece ao final do filme, assim como o destino de todos os personagens principais da vida do diretor, como manda o figurino de obras biográficas. Alguns deles, inclusive, aparecem em personificações tão perfeitas que assombram, como o já citado Martin Landau como Bela Lugosi, e Vincent D'Onofrio como Orson Welles, numa seqüência fictícia de um encontro seu com Ed Wood. Johnny Depp está ótimo no papel-título, apesar de ter o físico e as feições não muito similares às de Wood.

A Buena Vista incluiu como extras do DVD o trailer, um videoclipe instrumental "do além" com Lisa Marie e sua personificação de Vampira, e cinco featurettes com duração média de 10 minutos cada. Os featurettes trazem cenas de bastidores, Rick Baker falando sobre a maquiagem de Martin Landau, um especial sobre o fenômeno do travestismo, apresentação do design de produção do filme e uma interessantíssima amostra do teremin (theremin), bizarro instrumento musical utilizado por Howard Shore para compor a trilha sonora típica dos filmes B dos anos 50.

Texto postado por Kollision em 1/Dezembro/2004